Acórdão Supremo Tribunal de Justiça – Processo 15385/15.6T8LRS.L1.S1 – 2019-10-17

Relator: OLIVEIRA ABREU. I. O acidente de via??o n?o ? uma est?tica mas uma din?mica, da? que os factos adquiridos devam ser interpretados numa perspectiva critica para se apurar, seleccionar, surpreender aqueles que tiveram a virtualidade de, s? por si, desencadearem todo o nexo causal e necess?rio ao evento. II. A lei distingue, no campo mais geral da responsabilidade extracontratual, entre responsabilidade civil por factos il?citos e responsabilidade pelo risco. III. A responsabilidade por factos il?citos, com base na culpa, ? a regra, pois s? existe obriga??o de indemnizar independentemente de culpa nos casos especificados na lei. IV. O elemento b?sico da responsabilidade ? o facto do agente - um facto domin?vel ou control?vel pela vontade, um comportamento ou uma forma de conduta humana - pois s? quanto a factos dessa ?ndole t?m cabimento a ideia da ilicitude, o requisito da culpa e a obriga??o de reparar o dano nos termos em que a lei a imp?e, mas, fundamental na responsabilidade por factos il?citos, por culpa, al?m da ilicitude (elemento objectivo, o autor agiu objectivamente mal), ? essencial concluir que a conduta do lesante se pode considerar reprov?vel, censur?vel. V. Quando n?o se encontra fundamento no instituto da responsabilidade civil extracontratual ou aquiliana, afastada que est? a culpa do condutor do ve?culo interveninete no acidente ajuizado, cabe aferir se a obriga??o de indemnizar se fundamenta em facto danoso gerador de responsabilidade objectiva, porque inclu?do na zona de riscos a cargo de pessoa diferente do lesado. Nota dominante da responsabilidade pelo risco, temo-la no facto de a lei prescindir daquele elemento subjectivo, da culpa. O fundamento da responsabilidade n?o reside agora no prop?sito de um acto culposo, mas sim no controle de um risco, ou talvez, com maior rigor, no controle de potenciais danos, aliado ao princ?pio da justi?a distributiva, segundo a qual quem tiver o lucro ou em todo o caso, o beneficio de uma certa coisa, deve suportar os correspondentes encargos - ubi commodum ibi incommodum ? VI. Tradicionalmente, desvalorizando o elemento literal que decorre do direito substantivo civil, entendia-se que n?o era legalmente admiss?vel o concurso do risco do lesante com a culpa do lesado, invocando, para o efeito o regime jur?dico decorrente do n.? 2 do art.? 570? do C?digo Civil, sendo que actualmente est? firmada no Supremo Tribunal de Justi?a uma interpreta??o n?o mec?nica do art.? 505? do C?digo Civil no sentido de que n?o implica ?uma impossibilidade, absoluta e autom?tica, de concorr?ncia entre a culpa do lesado (ou, mais amplamente, a imputa??o do acidente ao lesado) e os riscos do ve?culo causador do acidente, de modo a que qualquer grau de contribui??o causal ou percentagem de culpa do lesado inviabilize sempre, de forma autom?tica, a eventual imputa??o de responsabilidade pelo risco, independentemente da dimens?o e intensidade dos concretos riscos de circula??o da viatura. Por?m, tal n?o implica que, por si s? e de forma imediata, se responsabilize o detentor efectivo do ve?culo (e respectiva seguradora) pelos danos sofridos pelo lesado, implicando sim que, em fun??o da factualidade subjacente a cada caso concreto, se pondere a medida da contribui??o do lesado, culposa ou n?o culposa. VII. Quando se alude a acidente imput?vel ao pr?prio lesado, quer-se dizer, antes de mais nada, acidente devido a facto culposo do lesado, acidente causado pela conduta censur?vel do lesado, importando saber se os danos verificados no acidente devem ser juridicamente considerados, n?o como um efeito do risco pr?prio do ve?culo, mas sim como uma consequ?ncia do facto praticado pelo lesado. VIII. Quando se apure que o acidente ocorreu devido ? actua??o da lesada - que o causou - sem que se possa atribuir ao condutor do ve?culo (? culpa do condutor) ou aos riscos pr?prios do ve?culo, qualquer contribui??o na respectiva produ??o, esta circunst?ncia encerra causa excludente da responsabilidade objectiva do condutor ou propriet?rio do ve?culo.

Source officielle

4 min de lecture 725 mots

Relator: OLIVEIRA ABREU. I. O acidente de via??o n?o ? uma est?tica mas uma din?mica, da? que os factos adquiridos devam ser interpretados numa perspectiva critica para se apurar, seleccionar, surpreender aqueles que tiveram a virtualidade de, s? por si, desencadearem todo o nexo causal e necess?rio ao evento. II. A lei distingue, no campo mais geral da responsabilidade extracontratual, entre responsabilidade civil por factos il?citos e responsabilidade pelo risco. III. A responsabilidade por factos il?citos, com base na culpa, ? a regra, pois s? existe obriga??o de indemnizar independentemente de culpa nos casos especificados na lei. IV. O elemento b?sico da responsabilidade ? o facto do agente – um facto domin?vel ou control?vel pela vontade, um comportamento ou uma forma de conduta humana – pois s? quanto a factos dessa ?ndole t?m cabimento a ideia da ilicitude, o requisito da culpa e a obriga??o de reparar o dano nos termos em que a lei a imp?e, mas, fundamental na responsabilidade por factos il?citos, por culpa, al?m da ilicitude (elemento objectivo, o autor agiu objectivamente mal), ? essencial concluir que a conduta do lesante se pode considerar reprov?vel, censur?vel. V. Quando n?o se encontra fundamento no instituto da responsabilidade civil extracontratual ou aquiliana, afastada que est? a culpa do condutor do ve?culo interveninete no acidente ajuizado, cabe aferir se a obriga??o de indemnizar se fundamenta em facto danoso gerador de responsabilidade objectiva, porque inclu?do na zona de riscos a cargo de pessoa diferente do lesado. Nota dominante da responsabilidade pelo risco, temo-la no facto de a lei prescindir daquele elemento subjectivo, da culpa. O fundamento da responsabilidade n?o reside agora no prop?sito de um acto culposo, mas sim no controle de um risco, ou talvez, com maior rigor, no controle de potenciais danos, aliado ao princ?pio da justi?a distributiva, segundo a qual quem tiver o lucro ou em todo o caso, o beneficio de uma certa coisa, deve suportar os correspondentes encargos – ubi commodum ibi incommodum ? VI. Tradicionalmente, desvalorizando o elemento literal que decorre do direito substantivo civil, entendia-se que n?o era legalmente admiss?vel o concurso do risco do lesante com a culpa do lesado, invocando, para o efeito o regime jur?dico decorrente do n.? 2 do art.? 570? do C?digo Civil, sendo que actualmente est? firmada no Supremo Tribunal de Justi?a uma interpreta??o n?o mec?nica do art.? 505? do C?digo Civil no sentido de que n?o implica ?uma impossibilidade, absoluta e autom?tica, de concorr?ncia entre a culpa do lesado (ou, mais amplamente, a imputa??o do acidente ao lesado) e os riscos do ve?culo causador do acidente, de modo a que qualquer grau de contribui??o causal ou percentagem de culpa do lesado inviabilize sempre, de forma autom?tica, a eventual imputa??o de responsabilidade pelo risco, independentemente da dimens?o e intensidade dos concretos riscos de circula??o da viatura. Por?m, tal n?o implica que, por si s? e de forma imediata, se responsabilize o detentor efectivo do ve?culo (e respectiva seguradora) pelos danos sofridos pelo lesado, implicando sim que, em fun??o da factualidade subjacente a cada caso concreto, se pondere a medida da contribui??o do lesado, culposa ou n?o culposa. VII. Quando se alude a acidente imput?vel ao pr?prio lesado, quer-se dizer, antes de mais nada, acidente devido a facto culposo do lesado, acidente causado pela conduta censur?vel do lesado, importando saber se os danos verificados no acidente devem ser juridicamente considerados, n?o como um efeito do risco pr?prio do ve?culo, mas sim como uma consequ?ncia do facto praticado pelo lesado. VIII. Quando se apure que o acidente ocorreu devido ? actua??o da lesada – que o causou – sem que se possa atribuir ao condutor do ve?culo (? culpa do condutor) ou aos riscos pr?prios do ve?culo, qualquer contribui??o na respectiva produ??o, esta circunst?ncia encerra causa excludente da responsabilidade objectiva do condutor ou propriet?rio do ve?culo.


Portails officiels portugais (DGSI / Tribunal Constitucional). Republication en metadata_only par prudence licencielle ; consulter la source officielle pour le texte authentique.

A propos de cette decision

Décisions similaires

Portugal

Tribunal da Relação de Lisboa

Civil PT

Acórdão Tribunal da Relação de Lisboa – Processo 1787/25.3YLPRT.L1 -2 – 2026-04-25

Relator: JO?O SEVERINO. Sum?rio (art.? 663.? n.? 7 do C. P. Civil): I ? Se o arrendat?rio n?o pagar ao senhorio a renda acordada durante tr?s meses, forma-se na esfera jur?dica deste o direito potestativo de resolver o contrato de arrendamento, direito esse que pode ser exercido de duas formas: judicialmente, ou seja, com recurso ? a??o de despejo; extrajudicialmente, atrav?s de comunica??o ao arrendat?rio mediante notifica??o avulsa ou por contacto pessoal de advogado, solicitador ou solicitador de execu??o, comprovadamente mandatado para o efeito. II ? A imputa??o dos pagamentos de rendas ? feita sucessivamente de uma das formas que seguem, sendo que a aplica??o de uma afasta a pertin?ncia das subsequentes: ou h? acordo das partes quanto ? imputa??o do pagamento; n?o se provando tal acordo, o devedor, no pr?prio ato de pagamento, pode designar a que d?vida se reporta o pagamento; n?o se provando que o devedor fez tal designa??o no ato do pagamento, haver? que aplicar o regime supletivo legal do artigo 784.? do C?digo Civil. III ? Se o inquilino deixar de pagar a renda devida (que vinha a ser paga com reten??o do I.R.C. na fonte), o senhorio tem o direito de pedir o pagamento da renda bruta (incluindo a reten??o na fonte) e esse direito s? se extingue se, mais tarde, o arrendat?rio alegar e provar que acabou por entregar ao Estado valores iguais ao que devia ter retido. IV ? O exerc?cio do direito de resolu??o por falta de pagamento de rendas, n?o obstando ? cobran?a das rendas em atraso, exclui o direito ? indemniza??o legal de 20% do que for devido.

Portugal

Tribunal da Relação de Lisboa

Civil PT

Acórdão Tribunal da Relação de Lisboa – Processo 4145/19.5YIPRT.L1-2 – 2026-04-24

Relator: RUTE SOBRAL. Sum?rio (elaborado nos termos do disposto no artigo 663?, n? 7, CPC): I ? Considerando o recorrente insuficiente o prazo de vista de documentos apresentados no in?cio de audi?ncia de julgamento em a??o especial para cumprimento de obriga??es pecuni?rias, regulada pelo Dl 269/98, de 01-09, invoca v?cio pr?vio ? elabora??o da senten?a, subsum?vel ao regime das nulidades a que se referem os artigos 186? a 202?, CPC. II ? Por estar em causa ato suscet?vel de influir no exame ou na decis?o da causa, enquadra-se no ?mbito das nulidades secund?rias, nos termos do artigo 195?, CPC, impondo-se a sua argui??o no pr?prio ato (audi?ncia de julgamento) em que o v?cio foi cometido, dado que a parte ali esteve presente ou representada, como decorre do disposto no artigo 199?, CPC. III ? A n?o argui??o de tal v?cio perante o Tribunal recorrido, impede o seu conhecimento em sede de recurso pelo Tribunal da Rela??o que apenas se pode pronunciar sobre a decis?o que recair sobre a reclama??o da nulidade. IV ? Nas a??es especiais para cumprimento de obriga??es pecuni?rias previstas no Dl 269/98, de 01-09, vigora o princ?pio da concentra??o da defesa previsto no artigo 573?, CPC, impondo ao r?u a invoca??o de toda a defesa no momento da dedu??o da oposi??o, sob pena de preclus?o. V - Tal regime de concentra??o da defesa fundamenta-se nos valores da celeridade processual e da pr?pria seguran?a jur?dica, que se concretizam com a delimita??o das quest?es de facto e de direito a debater entre as partes. VI ? Por for?a de tal princ?pio fica precludida a invoca??o pelo r?u da exce??o de prescri??o parcial do cr?dito quando confrontado, no in?cio da audi?ncia de julgamento, com as faturas que suportam o pedido do autor, cujos valores, data e servi?os, j? haviam sido mencionados no requerimento de injun??o. VII ? Invocando o recorrente, em alega??es de recurso, a mora do credor, por se tratar de ?quest?o nova? que n?o havia suscitado perante o tribunal recorrido, mostra-se vedada a sua aprecia??o.

Portugal

Tribunal da Relação de Lisboa

Civil PT

Acórdão Tribunal da Relação de Lisboa – Processo 589/24.9T8MTJ.L1-2 – 2026-04-24

Relator: RUTE SOBRAL. Sum?rio (elaborado nos termos do disposto no artigo 663?, n? 7, CPC): I ? Apurando-se a celebra??o de um contrato de presta??o de servi?os mediante o qual a r? se comprometeu a prestar servi?os na ?rea da estomatologia, em cl?nicas dent?rias exploradas pela autora, recebendo a correspetiva remunera??o, esta ? devida desde que se apure a execu??o da presta??o acordada. II ? N?o se apurando que os montantes reclamados na a??o pela autora correspondam ao valor de servi?os e de material adiantadamente pagos pela autora ? r?, sem que esta cumprisse a presta??o correspetiva, fica por demonstrar o facto constitutivo do direito indemnizat?rio invocado, improcedendo a a??o, nos termos do artigo 342?, n? 1, CC. III ? Demonstrando-se que no ?mbito de tal rela??o contratual, o pagamento era efetuado ap?s a efetiva realiza??o dos tratamentos dent?rios e n?o antecipadamente como alegou a autora, a sua atua??o processual, reconduz-se aos elementos objetivos e subjetivos da litig?ncia de m? f?, justificando um ju?zo de censura por recurso ao direito de a??o em situa??o de manifesta falta de fundamento.

Analyse stratégique offerte

Envoyez vos pièces. Recevez une stratégie.

Transmettez-nous les pièces de votre dossier. Maître Hassan KOHEN vous répond personnellement sous 24 heures avec une première analyse stratégique de votre situation.

  • Première analyse offerte et sans engagement
  • Réponse personnelle de l'avocat sous 24 heures
  • 100 % confidentiel, secret professionnel garanti
  • Jusqu'à 1 Go de pièces, dossiers et sous-dossiers acceptés

Cliquez ou glissez vos fichiers ici
Tous formats acceptes (PDF, Word, images, etc.)

Envoi en cours...

Vos donnees sont utilisees uniquement pour traiter votre demande. Politique de confidentialite.