Acórdão Supremo Tribunal de Justiça – Processo 1014/14.9TVLSB.L1.S1 – 2021-02-23
Relator: JOS? RAINHO. I - A desconsidera??o da personalidade coletiva da sociedade significa uma derroga??o do princ?pio legal da separa??o de esferas jur?dico-patrimoniais, visando-se com ela uma corre??o das consequ?ncias jur?dicas da imputa??o ? sociedade, segundo as regras gerais, de certos atos que, pelo seu car?ter abusivo ou pela sua finalidade extra-societ?ria, se entende que devem obrigar outras pessoas (outros patrim?nios). II - A desconsidera??o s? pode admitir-se a t?tulo excecional, sob pena de se esvaziar de conte?do o instituto da personalidade coletiva e cair em situa??es que envolveriam a sua nega??o. III - Tendo sido clausulado, em contrato de constitui??o de penhor de cr?ditos, que quem o constituiu estava impedido da disposi??o dos cr?ditos, ? ineficaz relativamente ao credor pignorat?cio a cess?o desses cr?ditos a terceiro, que conhecia aquela proibi??o, sendo por isso inoperante a compensa??o de cr?ditos que o cession?rio pretendeu depois opor ao credor pignorat?cio. IV - A circunst?ncia de um banco ter agido de forma irregular em v?rios dom?nios da sua atividade enquanto institui??o banc?ria, violando obriga??es contabil?sticas e prudenciais, n?o o faz incorrer, s? por si, direta e imediatamente, em responsabilidade civil perante os respetivos clientes. V - A provid?ncia extraordin?ria estabelecida pelo Banco de Portugal a um banco de dispensa tempor?ria do cumprimento pontual de obriga??es anteriormente contra?das resolve-se numa exce??o dilat?ria de direito material, suscet?vel de obstar ? compensa??o de cr?ditos. VI - N?o ? identific?vel uma verdadeira uni?o intr?nseca de contratos, mas sim uma rela??o de garantia, entre um contrato de m?tuo, um contrato de gest?o de carteira de t?tulos e um contrato de penhor sobre os cr?ditos dessa carteira, tendo estes dois ?ltimos em vista dar garantia ao cumprimento das obriga??es que do primeiro emergiam para o mutu?rio. VII - Se n?o se mostra que a parte desequilibrou anteriormente o complexo contratual em que se insere o direito que exerce, agindo agora como se nada houvesse causado culposamente para a situa??o de incumprimento que imputa ? outra parte, n?o se pode concluir que exerce o direito de forma abusiva no figurino do chamado tu quoque.
2 min de lecture · 429 mots
Relator: JOS? RAINHO. I — A desconsidera??o da personalidade coletiva da sociedade significa uma derroga??o do princ?pio legal da separa??o de esferas jur?dico-patrimoniais, visando-se com ela uma corre??o das consequ?ncias jur?dicas da imputa??o ? sociedade, segundo as regras gerais, de certos atos que, pelo seu car?ter abusivo ou pela sua finalidade extra-societ?ria, se entende que devem obrigar outras pessoas (outros patrim?nios). II — A desconsidera??o s? pode admitir-se a t?tulo excecional, sob pena de se esvaziar de conte?do o instituto da personalidade coletiva e cair em situa??es que envolveriam a sua nega??o. III — Tendo sido clausulado, em contrato de constitui??o de penhor de cr?ditos, que quem o constituiu estava impedido da disposi??o dos cr?ditos, ? ineficaz relativamente ao credor pignorat?cio a cess?o desses cr?ditos a terceiro, que conhecia aquela proibi??o, sendo por isso inoperante a compensa??o de cr?ditos que o cession?rio pretendeu depois opor ao credor pignorat?cio. IV — A circunst?ncia de um banco ter agido de forma irregular em v?rios dom?nios da sua atividade enquanto institui??o banc?ria, violando obriga??es contabil?sticas e prudenciais, n?o o faz incorrer, s? por si, direta e imediatamente, em responsabilidade civil perante os respetivos clientes. V — A provid?ncia extraordin?ria estabelecida pelo Banco de Portugal a um banco de dispensa tempor?ria do cumprimento pontual de obriga??es anteriormente contra?das resolve-se numa exce??o dilat?ria de direito material, suscet?vel de obstar ? compensa??o de cr?ditos. VI — N?o ? identific?vel uma verdadeira uni?o intr?nseca de contratos, mas sim uma rela??o de garantia, entre um contrato de m?tuo, um contrato de gest?o de carteira de t?tulos e um contrato de penhor sobre os cr?ditos dessa carteira, tendo estes dois ?ltimos em vista dar garantia ao cumprimento das obriga??es que do primeiro emergiam para o mutu?rio. VII — Se n?o se mostra que a parte desequilibrou anteriormente o complexo contratual em que se insere o direito que exerce, agindo agora como se nada houvesse causado culposamente para a situa??o de incumprimento que imputa ? outra parte, n?o se pode concluir que exerce o direito de forma abusiva no figurino do chamado tu quoque.
Sources officielles : consulter la page source
Portails officiels portugais (DGSI / Tribunal Constitucional). Republication en metadata_only par prudence licencielle ; consulter la source officielle pour le texte authentique.
Articles similaires
A propos de cette decision
Décisions similaires
Portugal
Tribunal da Relação de Lisboa
Acórdão Tribunal da Relação de Lisboa – Processo 1787/25.3YLPRT.L1 -2 – 2026-04-25
Relator: JO?O SEVERINO. Sum?rio (art.? 663.? n.? 7 do C. P. Civil): I ? Se o arrendat?rio n?o pagar ao senhorio a renda acordada durante tr?s meses, forma-se na esfera jur?dica deste o direito potestativo de resolver o contrato de arrendamento, direito esse que pode ser exercido de duas formas: judicialmente, ou seja, com recurso ? a??o de despejo; extrajudicialmente, atrav?s de comunica??o ao arrendat?rio mediante notifica??o avulsa ou por contacto pessoal de advogado, solicitador ou solicitador de execu??o, comprovadamente mandatado para o efeito. II ? A imputa??o dos pagamentos de rendas ? feita sucessivamente de uma das formas que seguem, sendo que a aplica??o de uma afasta a pertin?ncia das subsequentes: ou h? acordo das partes quanto ? imputa??o do pagamento; n?o se provando tal acordo, o devedor, no pr?prio ato de pagamento, pode designar a que d?vida se reporta o pagamento; n?o se provando que o devedor fez tal designa??o no ato do pagamento, haver? que aplicar o regime supletivo legal do artigo 784.? do C?digo Civil. III ? Se o inquilino deixar de pagar a renda devida (que vinha a ser paga com reten??o do I.R.C. na fonte), o senhorio tem o direito de pedir o pagamento da renda bruta (incluindo a reten??o na fonte) e esse direito s? se extingue se, mais tarde, o arrendat?rio alegar e provar que acabou por entregar ao Estado valores iguais ao que devia ter retido. IV ? O exerc?cio do direito de resolu??o por falta de pagamento de rendas, n?o obstando ? cobran?a das rendas em atraso, exclui o direito ? indemniza??o legal de 20% do que for devido.
Portugal
Tribunal da Relação de Lisboa
Acórdão Tribunal da Relação de Lisboa – Processo 4145/19.5YIPRT.L1-2 – 2026-04-24
Relator: RUTE SOBRAL. Sum?rio (elaborado nos termos do disposto no artigo 663?, n? 7, CPC): I ? Considerando o recorrente insuficiente o prazo de vista de documentos apresentados no in?cio de audi?ncia de julgamento em a??o especial para cumprimento de obriga??es pecuni?rias, regulada pelo Dl 269/98, de 01-09, invoca v?cio pr?vio ? elabora??o da senten?a, subsum?vel ao regime das nulidades a que se referem os artigos 186? a 202?, CPC. II ? Por estar em causa ato suscet?vel de influir no exame ou na decis?o da causa, enquadra-se no ?mbito das nulidades secund?rias, nos termos do artigo 195?, CPC, impondo-se a sua argui??o no pr?prio ato (audi?ncia de julgamento) em que o v?cio foi cometido, dado que a parte ali esteve presente ou representada, como decorre do disposto no artigo 199?, CPC. III ? A n?o argui??o de tal v?cio perante o Tribunal recorrido, impede o seu conhecimento em sede de recurso pelo Tribunal da Rela??o que apenas se pode pronunciar sobre a decis?o que recair sobre a reclama??o da nulidade. IV ? Nas a??es especiais para cumprimento de obriga??es pecuni?rias previstas no Dl 269/98, de 01-09, vigora o princ?pio da concentra??o da defesa previsto no artigo 573?, CPC, impondo ao r?u a invoca??o de toda a defesa no momento da dedu??o da oposi??o, sob pena de preclus?o. V - Tal regime de concentra??o da defesa fundamenta-se nos valores da celeridade processual e da pr?pria seguran?a jur?dica, que se concretizam com a delimita??o das quest?es de facto e de direito a debater entre as partes. VI ? Por for?a de tal princ?pio fica precludida a invoca??o pelo r?u da exce??o de prescri??o parcial do cr?dito quando confrontado, no in?cio da audi?ncia de julgamento, com as faturas que suportam o pedido do autor, cujos valores, data e servi?os, j? haviam sido mencionados no requerimento de injun??o. VII ? Invocando o recorrente, em alega??es de recurso, a mora do credor, por se tratar de ?quest?o nova? que n?o havia suscitado perante o tribunal recorrido, mostra-se vedada a sua aprecia??o.
Portugal
Tribunal da Relação de Lisboa
Acórdão Tribunal da Relação de Lisboa – Processo 589/24.9T8MTJ.L1-2 – 2026-04-24
Relator: RUTE SOBRAL. Sum?rio (elaborado nos termos do disposto no artigo 663?, n? 7, CPC): I ? Apurando-se a celebra??o de um contrato de presta??o de servi?os mediante o qual a r? se comprometeu a prestar servi?os na ?rea da estomatologia, em cl?nicas dent?rias exploradas pela autora, recebendo a correspetiva remunera??o, esta ? devida desde que se apure a execu??o da presta??o acordada. II ? N?o se apurando que os montantes reclamados na a??o pela autora correspondam ao valor de servi?os e de material adiantadamente pagos pela autora ? r?, sem que esta cumprisse a presta??o correspetiva, fica por demonstrar o facto constitutivo do direito indemnizat?rio invocado, improcedendo a a??o, nos termos do artigo 342?, n? 1, CC. III ? Demonstrando-se que no ?mbito de tal rela??o contratual, o pagamento era efetuado ap?s a efetiva realiza??o dos tratamentos dent?rios e n?o antecipadamente como alegou a autora, a sua atua??o processual, reconduz-se aos elementos objetivos e subjetivos da litig?ncia de m? f?, justificando um ju?zo de censura por recurso ao direito de a??o em situa??o de manifesta falta de fundamento.